Corpo Eletrico



Havaí: Magia kahuna é psicologia espiritual

por Jens Federico Weskottjweskott@uol.com.br

Lanakila Brandt, filho de pai europeu e mãe havaiana, conta: “um dia, andando de jeep com um amigo inglês numa plantação de abacaxi, nosso carro capotou e ele quebrou a mão. Levei-o ao hospital e avisei a mulher havaiana.
Esta, furiosa, tirou o marido logo das mãos do médico e o levou à famosa curadora Endiaida, uma Kahuna ‘Lapa’au’. Ela mandou quebrar o gesso e começou a tradicional cerimônia de cura polinésia. Apesar de proibida oficialmente, os havaianos costumavam procurá-la, ou recorriam a outro kahuna clandestino.
Endiaida usou água benta e rezas, repetiu a cerimônia três vezes e pediu ao paciente que levantasse uma cadeira com a mão quebrada. Para espanto do inglês, sua mão estava bem.
Duas foram as conseqüências: meu amigo, imprudente, mostrou a mão curada no hospital, o médico acusou Endiaida de ser curandeira e ela foi multada em 2000 dólares, uma fortuna na época. A outra: eu me tornei discípulo de Endiaida.
Aprendi a carregar-me de mana e a projetá-lo a um corpo doente, ao coração, ao pulmão. O mana é uma força divina. Através dela a cura acontece. Claro, Deus é o curador, não eu. Huna não é terapia alternativa, é cura espiritual. Existe em muitas culturas”.

Lanakila continua: “Antes da vinda dos brancos, a arte da cura estava no auge. Havia especialistas para ‘endireitar’ ossos, curar com ervas e pedras, realizar operações e imposição de mãos, inclusive para harmonizar problemas familiares. As lendas contam de curas instantâneas e até de ressuscitar pessoas aparentemente mortas.
A palavra Huna já foi traduzida como segredo, quando significa oculto, a parte encoberta e não revelada da espiritualidade havaiana.
Um dia, em 1967, meus amigos advertiram: ‘sabe que, ao curar, você está fazendo algo ilegal’? Então, eu e outros Kahunas ainda atuantes começamos uma ação para cancelar as antigas proibições dos missionários, ainda vigentes. Tivemos sucesso. As leis contra a religião havaiana foram revogadas. Criamos então a fundação Kahanahou para promover a cultura tradicional”

Magia? Psicologia prática. Por que essa proibição de atuar como curandeiros? Os métodos dos Kahunas eram estranhos, parecia magia.
Os mestres espirituais do antigo Havaí conhecem um sistema de psicologia prático para curar corpo e mente: eles também ajudam às pessoas a resolver problemas pessoais e até conseguem ‘mudar’ seu futuro para melhor.
Sabem como melhorar o tempo, tornando-o mais favorável à agricultura, e podem caminhar descalços sobre lava incandescente.
Essa sabedoria dos Kahunas se baseia numa psicologia espiritual. É um sistema que procura, de modo consciente, a ajuda do Deus interior.
Assim, o ser humano é composto de três níveis de consciência: o subconsciente ou eu básico, o consciente ou eu médio e o Eu Superior, que a Psicologia Transpessoal chama de Superconsciente. Nas crianças, o contato entre os três eus é natural, mas com o tempo fica mais tênue. Huna visa estabelecer essa ligação voluntariamente ao fazer desta trindade uma unidade, facultando o homem viver seu pleno potencial.
Huna se diferencia de outras psico-religiões ao assumir que há um terceiro nível ao alcance do homem, que este Eu Superior pode ser contatado conscientemente e precisa da energia mana do eu básico para poder agir.
E mais: o Eu Superior possui o poder de transformar pedidos, se bem feitos, em realidade. Este ideal da trindade kahuna pode ser vista com um tipo de cristianismo esotérico.
Tal saber não nasceu no Havaí; é um sistema psicológico antigo praticado por sacerdotes no Oriente Médio, em secreto durante séculos. Porém, há indícios que influenciou crenças do Egito, Israel, Mesopotâmia e Índia. Os essênios, protetores de Jesus, o conheciam. Aliás, à luz do saber Huna, o próprio Jesus é tido como Kahuna exemplar.

Max Freedom Long, psicólogo e lingüista americano, foi quem desvendou o segredo em 1935. O termo Kahuna é ‘guardião do segredo’, além de significar curador, mestre, especialista ou xamã. Então, Long usou ‘Huna’ para designar o sistema.
Na visão Huna do subconsciente, o eu básico está longe de ter um comportamento imprevisível. Trata-se de entidade própria, o ‘irmão caçula’ do eu médio. É tão importante para o conjunto que se acostuma representá-lo por uma maçã, onde apenas o pequeno caule é o eu médio.
Desempenha tarefas vitais: apoiado nos cinco sentidos controla todas as funções do corpo. Assim, realiza mais de 90% do trabalho, tanto que é o nosso ‘robô’, o ‘piloto automático’. Sede das emoções, da alegria, raiva, medo, amor, tem personalidade própria, pode ser brincalhão, mal humorado, teimoso…
Também é sede da memória, arquiva todas as lembranças, boas e ruins, que – se não são bem interpretadas e racionalizadas pelo eu médio – tornam-se ‘fixações’ e ‘complexos’ – que técnicas Huna ajudam a descobrir e curar.
Elabora a energia mana, o termo havaiano para a energia universal, a força da vida de tantas culturas, o ‘prana’ hindu, o ‘chi’ chinês, o ‘ki’ japonês. O eu básico o cria simplesmente do ar e dos alimentos. Pode-se aumentar o nível de mana no corpo através da respiração. Esse mana pode ser direcionado pelo eu médio, junto a um pedido, para o Eu Superior que, como ser puramente espiritual, precisa de energia para poder atuar no mundo material – para nosso bem e o bem dos demais.

Já o eu médio é a vontade, o eu racional, é ‘o espírito que fala’ dos Kahunas. Monitora o eu básico, é o seu professor, mestre, conselheiro, programador, inspirador e… estabelece contato com o eu básico.
O terceiro membro da trindade, o Eu Superior, um ser não-físico, apenas espiritual, está a nosso alcance. É o guia e protetor do ser humano aos seus cuidados, o ‘espírito parental (pai-mãe) absolutamente confiável’ dos Kahunas. Consideram-no a ‘centelha divina’, o representante de Deus no homem,
Mas Ele não é Deus: vale o exemplo da água de mar: um copo com água do mar contém uma amostra de água de mar, mas não é o mar, não é o Todo.
As preces são dirigidas ao Eu Superior que pode influenciar o futuro do seu protegido transformando para melhor um destino pouco favorável. O método é enviar-lhe mana acompanhada da visualização do pedido já cumprido, enquanto o eu básico atua no mundo físico para obter o resultado pretendido – que, claro, não deve ferir ninguém, nem a si mesmo.
Nas preces, pode-se pedir ajuda para inúmeras questões envolvendo saúde, capacidades físicas e psíquicas, finanças, situações profissionais, desenvolvimento pessoal próprio ou dos demais. Visar sucesso nos empreendimentos materiais e bem-estar econômico são metas válidas e legítimas. Vivendo num mundo físico, um ambiente material confortável é útil à sobrevivência e constitui fonte de alegria que se transmite às pessoas próximas, influenciando-as positivamente.

Foi desta forma que a magia kahuna, tendo embutida uma psicologia espiritual milenar baseada apenas no ‘não ferir’, se tornou um modelo de sociedade harmoniosa e pacífica no antigo Havaí.

Texto revisado por: Cris

Publicado originalmente no:
http://somostodosum.ig.com.br/clube/artigos.asp?id=09429

Anúncios

Trackbacks & Pingbacks

Comentários

  1. * Thiago Santos says:

    O problema é que muitas pessoas confudem isso com magia negra que nao é verdade,tambem pensam que isso é adorar outros deuses,nao entendendo que esses treis somos nós mesmo e é uma coisa muito natural pra quem tem uma mente com entendimento Espiritual.

    | Responder Publicado 5 years, 10 months ago


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: